No bairro Poty Velho, em Teresina, onde os rios Poty e Parnaíba se encontram, o barro edifica há gerações parte da cultura material da região. É nesse território que atua a Cooperart Poty, cooperativa formada por cerca de 40 mulheres que transformam a cerâmica em peças decorativas e biojoias. A presença feminina tem um significado particular em um polo cerâmico historicamente conduzido por homens. Foi a partir desse contexto que o Estúdio Bloco A desenvolveu uma consultoria criativa junto à cooperativa, aplicando o design como uma ferramenta para reconhecer o valor de práticas existentes e ampliar suas possibilidades.
O trabalho começou antes do desenho. Os designers Igor e Ney Almeida, à frente do Estúdio Bloco A, aproximaram-se da rotina da cooperativa para compreender as particularidades da matéria, acompanhar os processos de produção e observar o repertório construído pelas artesãs ao longo dos anos. Técnicas, gestos, formas recorrentes e signos presentes nos objetos foram mapeados em paralelo a uma pesquisa sobre o mercado contemporâneo de design. A investigação procurou identificar novas tipologias, oportunidades de circulação e caminhos comerciais capazes de ampliar o alcance da produção sem romper sua relação com o território e com a identidade da Cooperart Poty.
Dessa aproximação nasceu a Coleção Remanso, uma série de objetos utilitários em cerâmica desenvolvida por meio de um processo de cocriação. Os desenhos iniciais propostos pelo Bloco A partiram de elementos já encontrados no vocabulário das artesãs e foram submetidos a sucessivas etapas de experimentação. Na passagem do papel para o barro, proporções, volumes e detalhes construtivos foram revistos a partir da experiência de quem domina a matéria.
O território atravessa a coleção de maneira concreta. O barro vem das proximidades da cooperativa. Peixes, flores, linhas e texturas que remetem ao ambiente ribeirinho aparecem reinterpretados nos objetos. Em Remanso, esse repertório encontra formas de caráter contemporâneo sem abandonar sua origem popular. Em vez de apagar irregularidades ou padronizar gestos em busca de uma aparência industrial, o projeto preserva as marcas do processo e permite que a mão de cada artesã permaneça reconhecível no objeto final.

Mais do que o desenvolvimento de uma nova linha de produtos, a consultoria coloca em discussão uma possibilidade de atuação do design brasileiro junto a contextos artesanais: menos orientada pela imposição de uma assinatura e mais interessada em criar condições para que conhecimentos existentes ganhem novas formas de expressão, circulação e valor. Ao articular pesquisa, desenvolvimento de produto, identidade e estratégia comercial, o encontro entre Estúdio Bloco A e Cooperart Poty reafirma que tradição e contemporaneidade não são forças opostas. Quando colocadas em diálogo, revelam novas possibilidades para o fazer artesanal.​​​​​​​
Fotos: Ana Falcão.